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Equivalência entre trabalho e calor
 
Por Flávio da Costa Gonçalves

Um dos experimentos mais clássicos da termodinâmica foi o experimento realizado pelo físico inglês James Prescott Joule (1818 – 1889), que conseguiu identificar e medir a transformação de calor em trabalho ou, comumente chamada de “medida do equivalente mecânico do calor”.

A grande descoberta de Joule foi ter mostrado que a equivalência entre calor e trabalho era algo presente na natureza, decifrando assim, a real natureza do calor. Na época da realização do experimento por Joule, no fim do século XIX, diversas teorias procuravam explicar o que exatamente era o fogo e o calor que por ele era produzido ou que nos aquece nas manhãs de verão. Nesta época, a teoria a respeito do calor mais aceita era a chamada “teoria do calórico”.
 

A teoria do calórico na termodinâmica

Entender o que previa a teoria do calórico é um passo importante para descrever como o experimento da medida do calor executado por Joule mudou o pensamento científico a respeito da natureza do calor e possibilitou o avanço cada vez maior da termodinâmica.

A teoria do calórico, criada no século XVII, supunha a existência de um fluido invisível e inodoro, chamado de "calórico" e que todos os corpos, sólidos, líquidos e gasosos conteriam em quantidade determinadas, dependendo de sua composição. Este fluido calórico era dado com o causador de todas as alterações de temperatura de um corpo; assim, quanto maior fosse a temperatura de um corpo, maior seria a sua quantidade de calórico.

Esta teoria sobreviveu até o começo do século XIX, pois ainda não se conhecia com precisão o comportamento das moléculas de um gás quando este era submetido a uma variação em sua pressão ou volume.


Os primeiros passos experimentais rumo a equivalência entre trabalho e calor

Foi no século XVIII que o físico e matemático Benjamin Thompson realizou os primeiros experimentos a respeito da natureza do calor. Mas estes resultados só foram efetivamente levados a sério pela comunidade científica quase um século depois. Thompson começou a observar o calor que era proveniente dos canhões logo após os disparos e sugeriu que o calor liberado estava ligado ao trabalho realizado pelo canhão e não pela perda de fluido calórico do canhão para a bala que acabara de ser disparada. Esta foi uma das primeiras tentativas de refutar a teoria do calórico em detrimento da equivalência entre trabalho e calor.

Como consequência indireta das observações de Thompson, o físico e médico Julius Robert Von Mayer deduziu e enunciou a teoria mecânica do calor, em 1842. Para ele, calor e trabalho eram equivalentes e talvez pudessem converter-se um no outro.


Joule e o estabelecimento da relação entre o trabalho mecânico e o calor

Um ano depois da dedução da equivalência entre trabalho mecânico e calor, o físico James Prescott Joule, um dos principais nomes da história da Física, conseguiu finalmente estabelecer que o calor e o trabalho são intercambiáveis, de relação fixa e é inteiramente independente dos materiais ou dos processos empregados.

Para chegar a esta conclusão, Joule realizou uma série de experimentos. O principal deles era constituído por uma roda de pás disposta horizontalmente sobre uma cuba de água fria. O movimento das pás das rodas era comunicado por um molinete que, quando girava, acarretava a queda de duas massas de quatro libras (ou 1, 8144 kg) cada uma. As massas caiam de uma altura de aproximadamente 11 metros, a uma velocidade de 30,4 cm/s – velocidade esta muito pequena, levando-se em conta a resistência enfrentada pelas pás quando entrava em contato com a água.

Harper's New Monthly Magazine, No. 231, August, 1869
A imagem acima é uma reprodução do aparato experimental utilizado por Joule na determinaçã da equivalência entre trabalho e calor. A medida que os pesos caem, a eneriga potencial gravitacional (mecânica) se transforma em calor (energia térmica), devido ao atrito entre as pás e a água. © Harper's New Monthly Magazine (Domínio Público)

A queda das massas arrastava então as pás, por meio do molinete, e a fricção das palhetas na água da cuba deveria aquecer esta água (a temperatura deveria elevar-se, pois a água efetuava um trabalho ao resistir ao movimento das pás da roda). A operação foi repetida ainda dezesseis vezes e a temperatura da água ao final deste processo foi medida com o auxílio de um termômetro de grande precisão (um centésimo ou 0,001 de grau Fahrenheit).

Cinco anos depois, em 1850, Joule apresentou uma monografia a Royal Society, relatando com mais detalhes uma série de experimentos semelhantes aos realizados em 1845, mas para os quais, utilizou pás manufaturadas com materiais diferentes – primeiramente, latão, depois ferro forjado e, depois, liga de ferro e carbono. Além disso, em alguns experimentos, Joule trocou a água por mercúrio. E Joule, efetivamente, mostrou que a taxa de entre calor e trabalho era fixa, e independente dos materiais utilizados e dos processos empregados.

Após a realização dos experimentos, Joule determinou finalmente o valor para o equivalente mecânico do calor: 772 pés-libras (cerca de 1046,66 J), muito próximo do valor aceito atualmente, que é de 776 pés-libras (equivalente a 1054 J).
Mas o fato mais importante, a experiência de Joule forneceu a primeira ilustração convincente do princípio de conservação da energia, uma das leis fundamentais da Física Moderna.



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