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O século XX, o século fantástico
 
Por Flávio da Costa Gonçalves

O século XX é comumente chamado de “o século fantástico” por conta das inúmeras descobertas realizadas pela Física neste período. Não é exagero algum dizer que o período marca uma verdadeira revolução na maneira como a Física lidava com suas leis e teorias, sobretudo com a Física de Partículas.

A primeira grande descoberta do século XX acontece logo em 1900, quando o físico alemão Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858 - 1947), estudava a radiação de corpo negro como parte de seu trabalho de doutorado, e ao se deparar com resultados inesperados, em que afirma que, ao contrário do que sempre se pensou, a energia das partículas era trocada em pacotes quantizados, cujos valores eram sempre números inteiros. Mesmo com a desconfiança de muitos cientistas – e do próprio Planck – a respeito dos resultados e da possibilidade de a energia ser não ser contínua, os resultados posteriores mostraram que Planck estava correto. Estava criada a Física Quântica.
 



Representação do modelo atômico de Thomson, de 1904. - EDUCAR - USP
  Quatro anos após a descoberta de Planck, em 1904, o físico inglês Joseph John Thomson (1856 – 1940) formulou a teoria segundo a qual a matéria, independente de suas propriedades, contém partículas de massa muito menores que o átomo do hidrogênio. Inicialmente denominou-as de corpúsculos, depois conhecidas como elétrons. A demonstração se deu ao comprovar a existência daqueles corpúsculos nos raios catódicos disparados na ampola de crookes (um tubo que continha vácuo), depois da passagem da corrente elétrica. Através de suas experiências, Thomson concluiu que a matéria era formada por um modelo atômico diferente do modelo atômico de Dalton (que previa que o átomo era indivisível): uma esfera de carga positiva continha corpúsculos (elétrons) de carga negativa distribuída uniformemente. Este modelo ficou conhecido como “pudim de passas”.


Annus Mirabilis

Mas é em 1905 que a Física é novamente revolucionada, tal qual foi na época de Isaac Newton. O físico alemão Albert Einstein (1879 – 1955) publica uma dois artigos que mudam completamente a forma como a ciência lidava com partículas que se movimentam a altas velocidades, assim como auxilia na explicação de fenômenos de natureza quântica, como o efeito fotoelétrico.

O primeiro deles, “On the Electrodynamics of Moving Bodies" , propôs a ideia dos "quanta de luz" (os fótons) e mostrou como é que poderiam ser utilizados para explicar fenômenos como o efeito fotoelétrico, que é a emissão de elétrons por um material, geralmente metálico, quando exposto a uma radiação eletromagnética (como a luz) de frequência suficientemente alta, que depende do material. Ele pode ser observado quando a luz incide numa placa de metal, literalmente arrancando elétrons da placa. Observado a primeira vez por Heinrich Hertz em 1887.  
O efeito fotoelétrico, observado por Hertz e explicado por Einstein em 1905.

O segundo dos quatro artigos de Einstein publicado em 1905 é "On the Motion—Required by the Molecular Kinetic Theory of Heat—of Small Particles Suspended in a Stationary Liquid", que fala a respeito do movimento browniano, que constitui uma evidência experimental da existência dos átomos. Antes deste artigo, os átomos eram considerados um conceito útil, mas sua existência concreta era controversa. Einstein relacionou as grandezas estatísticas do movimento browniano com o comportamento dos átomos e deu aos experimentalistas um método de contagem dos átomos através de um microscópio vulgar.

O terceiro artigo é a descrição da Teoria da Relatividade restrita, chamado de: “On the Electrodynamics of Moving Bodies". Nele, Einstein estabeleceu uma relação entre os conceitos de tempo e distância. Algumas das ideias matemáticas já haviam sido introduzidas um ano antes pelo físico neerlandês Hendrik Lorentz, mas Einstein mostrou como era possível entender esses conceitos. O seu trabalho baseou-se em dois axiomas: um foi a ideia de Galileu de que as leis da natureza são as mesmas para todos os observadores que se movem a uma velocidade constante relativamente uns aos outros; o outro, a ideia de que a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores. A relatividade restrita tem algumas consequências importantes, já que são rejeitados conceitos absolutos de tempo e tamanho.

O último dos artigos do Annus Mirabilis, “Does the Inertia of a Body Depend Upon Its Energy Content?", é uma extensão do terceiro. Einstein introduz o conceito de massa inercial, além de deduzir a conhecida relação entre massa e energia: E = mc2. Esta equação esteve na base de construção de bombas nucleares; mais tarde, a ideia serviu para explicar como é que o Big Bang, uma explosão de energia, poderia ter dado origem à matéria.


O átomo

A busca por um modelo atômico que explicasse diversas propriedades da matéria também foi uma busca constante no século XX. Após a introdução do modelo atômico de Thomson, no qual partículas negativas estavam imersas em uma região de partículas positivas, tal qual passas em um pudim (daí o apelido do modelo), o modelo atômico necessitava de algumas correções.

Em 1911, Ernest Rutherford deduziu a partir do experimento de deflexão a existência de um compacto núcleo atômico, com cargas positivamente carregadas, denominado prótons. Então, o átomo deveria ser composto por regiões distintas, diferentemente do que Thomson propôs alguns anos antes.

Este modelo foi muito bem aceito pela ciência. Entretanto, este modelo não conseguia explicar uma previsão teórica a respeito dos elétrons: se eles emitem constantemente radiação, eles deveriam perder e energia; com esta perda, eles deveriam cair no núcleo atômico. De fato, a ideia de que os elétrons estariam “condenados a cair” no núcleo do átomo, onde estavam os prótons, estava errada, mas a explicação só veio algum tempo depois, graças a Niels Bohr.



O modelo atômico proposto por Bohr, onde os elétrons orbitam ao redor do núcleo, onde se encontram os prótons.
  Em 1920, nomeado diretor do Instituto de Física Teórica, Bohr e após ter trabalhado por dois anos com Ernest Rutherford acabou desenvolvendo um modelo atômico que unificava a teoria atômica de Rutherford e a teoria da mecânica quântica de Max Planck.

Sua teoria consistia que ao girar em torno de um núcleo central, os elétrons deveriam girar em órbitas específicas com níveis energéticos bem definidos. Que poderia haver a emissão ou absorção de pacotes discretos de energia chamados de quanta ao mudar de órbita.


Realizando estudos nos elementos químicos com mais de dois elétrons, concluiu que se tratava de uma organização bem definida em orbitais. Descobriu ainda que as propriedades químicas dos elementos eram determinadas pelo orbital mais externa.

Assim, chegou-se ao modelo atômico aceito atualmente.

Algumas partículas que compõem o átomo foram descobertas mais tarde. Por exemplo, os nêutrons, o constituinte neutro do núcleo, foram descobertos em 1932 por James Chadwick.


Mais teoria quântica

Em 1925, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger formularam a mecânica quântica, a qual esclarecia a teoria quântica precedente de Max Planck e Albert Einstein. Na mecânica quântica, os resultados dos experimentos físicos eram de origem probabilística. A teoria descreve o calculo destas probabilidades. Ela foi bem sucedida em descrever o comportamento da matéria em escala reduzida.


Durante a Segunda Guerra Mundial

Algumas descobertas físicas no período antes da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) foram muito importantes, principalmente na compreensão da Cosmologia, Eletromagnetismo e Física de Partículas.

Por volta de 1940, pesquisadores como George Gamov propuseram a teoria do Big Bang, para a qual foram descobertas evidências em 1964; Enrico Fermi e Fred Hoyle estavam entre os que duvidavam entre 1940 e 1950. Hoyle havia denominado a teoria de Gamov Big Bang de forma a ridicularizá-la. No presente, ela é um dos principais resultados da cosmologia.

Mas com a II Guerra Mundial, a Física foi utilizada para desenvolver armas e equipamentos de defesa. Surge então, a Internet (como meio de comunicação entre as tropas americanas), o botox (como material que seria utilizado para desenvolver fardas à prova de balas), os primeiros trabalhos para a criação do GPS e de satélites de comunicação. Mas, talvez o grande desenvolvimento que a Segunda Guerra trouxe foi a grande expansão da Física Nuclear, possibilitando a criação de equipamentos médicos para o tratamento de diversas doenças, e melhoria de materiais e, principalmente, a criação e a utilização da bomba atômica pelo exército dos Estados Unidos.

O desenvolvimento da bomba atômica (termo não adequado para esta bomba) se deve, em grande parte, a contratação de diversos físicos notórios de várias partes do mundo; entre eles, Albert Einstein. Einstein participou dos primeiros testes com a bomba no Novo México, mas não teria ideia da destruição humana que a bomba causaria quando utilizada. Dizem alguns historiadores que Einstein não sabia que a bomba seria utilizada no combate. Mas, a bomba foi utilizada no Japão, nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, causando uma destruição sem precedentes na história humana.


A Física pós-guerra e os dias atuais

A Física no período pós-guerra entrou em uma fase que os historiadores têm chamado de "grande ciência", requerendo enormes maquinas, construções, e laboratórios de forma a testar suas teorias e avançar para novas fronteiras. O financiador principal da física tornou-se o governo, que reconheceu que o suporte a pesquisa "básica" poderia frequentemente levar a tecnologias úteis tanto para aplicações militares como industriais.

A eletrodinâmica quântica, a qual descreve a interação eletromagnética, formulada com o objetivo de estender a mecânica quântica de forma a se tornar consistente com a relatividade restrita por Dirac em 1928. A partir desta a teoria do campo quântico obtém a sua forma moderna no final de 1940 com o trabalho de Richard Feynman, Julian Schwinger, Sin-Itiro Tomonaga, e Freeman Dyson.

A teoria do campo quântico proveu um arcabouço para a física de partículas moderna, a qual estuda forças fundamentais e partículas elementares. Em 1954 Yang Chen Ning e Robert Mills desenvolveram uma classe de teoria de gauge, a qual serviu de base para o modelo padrão. O modelo padrão, completado em 1970, descreve com sucesso a maior parte das partículas observadas até nossos dias.






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