É fato que todos nós, pelo menos alguma vez na vida, já
se pegou duvidando de alguma cena que viu em algum filme
de ação. Guerras no espaço com um claro som de
explosões, carros que voam como que por milagre, espiões
que utilizam de todos os artifícios para salvarem o
mundo. Obviamente algum filme possa ser rodado
respeitando as leis da Física, mas é pouco provável que
este filme tenha feito algum significativo sucesso.
O cinema mexe com a fantasia, com nossos sonhos e por
isso mesmo, toda essa magia que envolve os filmes passa
por cima de qualquer bom senso científico. Filmes de
ação como Twister (1996) ou O Dia Depois de Amanhã
(2004) ou até mesmo o filme-documentário O Segredo
(2005) envolveram milhares de telespectadores no mundo
todo, mas provocaram ânsia e calafrios nos cientistas
por suas previsões e teorias totalmente distorcidas de
nossa realidade científica atual. |
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Cena do filme "Uma Viagem a Lua" de
1906, considerado o primeiro filme de ficção científica. |
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Tudo começou com o curta
Uma Viagem à Lua, do francês Georges Méliès. Nas
palavras do físico Marcelo Gleiser: “no filme, seis
aventureiros chegam até a Lua em uma cápsula disparada
por um canhão. Após sua chegada, os tripulantes são
raptados por habitantes lunares com intenções nada
amistosas. Os heróis escapam, empurram a espaçonave da
beira da Lua de modo que ela caia sobre a Terra, bem
sobre o Oceano Atlântico. Tudo no filme está errado,
claro. A aceleração de um tiro de canhão potente o
suficiente para levar pessoas até a Lua às mataria quase
que imediatamente. Cair da Lua é impossível”. Este
filme, o primeiro de uma linhagem que passa pelo filme O
Segredo, indo até O Dia Depois de Amanhã, exagera,
inventa ciência para criar um enredo emocionante. A
questão então é o que devem fazer os cientistas a
respeito, se é que devem fazer algo. Cabe a eles tentar
“consertar” a ciência dos filmes, escrevendo cartas e
artigos sobre o assunto? Será que faz sentido criticar a
indústria cinematográfica pelos erros crassos? |
A maior parte dos cientistas
responderia que é óbvio que os filmes deveriam seguir a
risca o que a Física diz a respeito de uma determinada cena.
E obviamente isso seria muito bom, não só para os filmes,
que seriam tão próximos da realidade quanto possível, mas
também para os seus espectadores, que aprenderiam e
associariam muito melhor o conceito de ciência. Mas você,
caro leitor, vai ao cinema para aprender ou para se divertir
com sua família e amigos? Claro, filmes históricos ou mesmo
aqueles fiéis à ciência têm enorme valor cultural. Outros
educam as emoções através da ficção. Mas se existirem
exageros, eles não devem ser criticados como tal. Fantasmas
não existem, mas filmes de terror sim. Pode-se argumentar
que, no caso de filmes que versam sobre temas científicos,
as pessoas vão ao cinema esperando uma ciência crível. Isso
pode ser verdade, mas elas não deveriam basear suas
conclusões no que diz o filme. No mínimo, cinema pode servir
como mecanismo de alerta para questões científicas
importantes: o aquecimento global, a inteligência
artificial, a engenharia genética, as guerras nucleares, os
riscos espaciais como cometas ou asteroides etc. Mas o
conteúdo não deve ser levado ao pé da letra. A arte distorce
para persuadir. E o cinema moderno, com efeitos especiais
absolutamente espetaculares, distorce com enorme facilidade
e poder de persuasão.
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| Dois filmes de
ficção científicos muito conhecidos. Jornada nas
Estrelas (esquerda) mostra a saga da raça humana em
viagens espaciais com velocidades maiores do que a
velocidade da luz, enquanto Armageddon (direita),
mostra a Terra sendo salva do impacto de um
asteroide quando uma equipe especializada em
prospecção de petróleo o explode. A ficção
científica mostrada nos filmes pode fugir de todos
os princípios físicos, mas fascina milhões de
espectadores ao redor do mundo. |
O que os cientistas estão fazendo como
via de regra é utilizar estes mesmos filmes que exageram na
ficção para mostrar o que é correto ou não aos olhos da
ciência. Ou seja, os filmes agora se tornaram uma importante
prática pedagógica no ensino da Física, Biologia,
Matemática, Química. Os alunos certamente se sentirão muito
mais atraídos por uma análise científica de um filme do que
por uma aula convencional. Assim podemos garantir que
formaremos cidadãos e cidadãs conscientes do que é real e o
que é imaginário.
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